Introdução


 

O mundo sobre os mistérios da inteligência é muito intrigante e desafiador. Desde a antigüidade, muitos filósofos gregos já se questionavam e produziam textos a sobre o tema, deixando para as gerações seguintes um legado de perguntas referentes à sua natureza. Sócrates, em 400 a.C., procurou saber quem era a pessoa mais sábia do mundo e, para tanto, testou o conhecimento das pessoas para responder a essa pergunta. Desde então, o desafio de testar indivíduos e determinar sua classificação continuou...

 

Só no final do século XIX os pesquisadores aprofundaram seus estudos de forma mais sistemática, embasando-se na psicologia, educação, sociologia, medicina etc. Nestes 100 anos, muitas pesquisas apresentaram explicações sobre o funcionamento do pensamento na mente humana em termos neurológicos e psicológicos. Os estudos aprofundaram-se em diversas direções e propuseram explicações que consideram a inteligência desde um dom divino até um complexo sistema de reações bioquímicas, com os milhões de neurônios do cérebro. Alguns abordaram a capacidade de adaptação de comportamentos e as heranças biológicas e sociais, baseando-se na teoria da evolução; outros concentraram-se na compreensão da linguagem na construção de símbolos e significados. Hoje, profissionais de várias áreas do conhecimento estão debruçados sobre o assunto, usando pesquisas neurológicas e equipamentos avançados. No entanto, mesmo com muitos estudos teóricos e testes de laboratório, as dúvidas persistem.

A manifestação da inteligência

 

Entre essas vertentes, percebe-se que há muita relatividade e discussão sobre o conceito. Independentemente da explicação científica sobre a origem da inteligência e funcionamento do cérebro, ou seja, a sua causa, este trabalho busca o oposto: sua conseqüência. Em outras palavras, este livro tem o objetivo de analisar a chamada “manifestação da inteligência”, ou a materialização de um potencial biológico/psicológico/mental de forma prática.

 

Nesta linha, alguns psicólogos começaram a estudar minuciosamente os comportamentos considerados inteligentes para poder levantar a existência de faculdades mentais que definam essa  tal de “inteligência”. O assunto é intrigante, pois o que é manifestação inteligente para algumas pessoas pode não ser considerado para outras.

 

Por exemplo, demonstração de inteligência pode ser:

- passar em 1º lugar vestibular ou concurso;

- ser o melhor aluno da classe;

- tomar decisões rápidas e acertadas;

- ter raciocínio rápido;

- ser bem sucedido economicamente;

- conversar sobre todos os assuntos com propriedade;

- saber matemática;

- saber filosofia;

- ter ótima memória;

- ter capacidade para aprender rapidamente;

- ser muito estudioso;

- possuir visão sistêmica;

- ser equilibrado emocionalmente;

- jogar excepcionalmente um esporte;

- tocar excepcionalmente um instrumento, et

 

Por que estudar a inteligência através da sua manifestação ? Porque se a pessoa não se manifestar, não saberemos se ela é inteligente ou não. Na visão prática, não existe inteligência sem manifestação verbal, escrita ou gestual

 

Descobrir e escrever padrões, definições e características sobre inteligência sempre me fascinaram. Nesta tentativa, a questão mais desafiadora foi: existem pessoas mais inteligentes que outras? Ou será que existem diferentes habilidades intelectuais que caracterizam as pessoas de forma distinta, mas impossível de comparação?

 

Ainda que o conceito de pessoa inteligente seja discutível e de difícil definição, um fato é comprovado: existem diferenças individuais na demonstração de inteligência. A sociedade vive em constante julgamento e classifica as pessoas ao comparar as manifestações com um padrão que considera inteligente. Conseqüentemente, deve ser possível identificar e qualificar essas características, bem como as diversas habilidades humanas que produzem a manifestação inteligente.

 

A subjetividade da inteligência

           

Na busca por essas respostas, a inteligência aparece como um conceito muito relativo e subjetivo. Uma vez que não existe uma definição científica universalmente aceita, a consideração de inteligência passa a depender da pessoa a quem se pergunta, os métodos de estudá-la e os valores e crenças envolvidos.

 

Enquanto alguns estudiosos associam a inteligência mais estreitamente a comportamentos acadêmicos, como capacidades verbais e de solução de problemas, outros a associam à resolução de problemas práticos, no cotidiano pessoal e profissional, além das características pessoais, interesse pelo estudo e competência social. Da mesma forma, para algumas pessoas uma demonstração de alta de memorização é indício de inteligência; outras consideram a capacidade de raciocínio e dedução, e para outras é relevante a capacidade de aprendizagem.

 

Entretanto, um fator complicador na identificação e qualificação da inteligência é a sua vinculação com sucesso na vida. Considere um indivíduo que sempre foi mediano na escola ou faculdade, sem grande reconhecimento intelectual, mas revelou-se um dos melhores e mais prestigiado profissional na área. E então, ele é ou não inteligente? Difícil de responder. Primeiro, porque não há um conceito claro sobre a inteligência. Depois, porque o conceito de sucesso também é subjetivo.

 

A questão se torna ainda mais difícil ao considerar outros conceitos além da palavra inteligência, como por exemplo, talento, habilidade, capacidade, competência, faculdade, aptidão, etc. O problema é semântico ou conceitual? Questionamento semelhante ocorre quando comparamos o termo inteligente com as palavras sábio, culto, intelectual, instruído, etc. Quando se fala sobre quem é inteligente, entra em discussão outro importante conceito: o grau de inteligência. Assim, responder quem é mais inteligente torna-se bastante difícil.

 

Como primeira tentativa para definir inteligência, busquei a definição do dicionário: inteligente é a pessoa que tem a faculdade de aprender, apreender e compreender facilmente. Entretanto, essa generalização é bastante simplista e imprópria, pois todo ser humano difere-se dos demais animais irracionais justamente devido a essa capacidade. Portanto, todas as pessoas que conhecemos são inteligentes ?

 

Se a definição do dicionário não basta para conceituar e qualificar as características de inteligência dos indivíduos, outra tentativa é relacionar a inteligência com

·         a presteza em acumular informações

·         a retenção das mesmas, e

·         a capacidade de buscar rapidamente essas informações na memória.

 

Uma pessoa com essas características tem o seu nível de inteligência elevado quanto mais ostensiva for a exibição dessas habilidades, ou seja, a manifestação da inteligência. Entretanto, essa definição também não é suficiente. Isaac Asimov (1992) questiona a tentativa de classificação de indivíduos inteligentes, pois isso envolve muita subjetividade e cultura. Segundo ele, essa noção popular de inteligência é equivocada. Uma pessoa pode apresentar as mesmas características acima e dar mostras de ser bastante ignorante. Como exemplo, uma demonstração de alta memorização de datas, fatos, nomes e números, quando decorado, pode não ter serventia para o dia a dia e desenvolvimento profissional.

 

O contrário, ou seja, a ausência total dessa capacidade também não quer dizer burrice. Como exemplo, temos o estereótipo do professor avoado, distraído, que esquece de tudo. Ele é considerado inteligente, pois é um gênio em sua área de conhecimento. Chega a ser perdoado pelos seus enganos devido a sua alta capacidade em determinada disciplina.

 

A questão não se resume à concentração do conhecimento, como o caso do professor. É comum a divisão do saber em categorias mais e menos valorizadas. Exemplo: um jovem entende tudo de futebol como uma enciclopédia, sabendo nomes, resultados, regras e datas, mas não sabe muito sobre matemática e gramática. Ele não será perdoado se falhar em cálculo (ele é burro...).Entretanto, outro jovem conhece todos os teoremas matemáticos, mas não sabe nem quantos jogadores formam um time de futebol. Ele será perdoado (ele é inteligente...). Nos julgamentos acadêmicos e tradicionais, a matemática está associada à inteligência e o futebol não.     

 

De forma geral, existem áreas associadas à inteligência e outras não. Com certeza não são aquelas que envolvem esforço físico, coordenação motora, beleza ou artes. O grande jogador, nadador, pintor, escultor ou músico podem ser bem-sucedidos, mas não são considerados inteligentes pelas suas habilidades nessas atividades, e sim talentosos. Tradicionalmente, a associação de inteligência se faz no campo teórico. O ensino, as letras, as disciplinas escolares e a pesquisa científica são exemplos associados à inteligência. Podem ficar de fora as competências mecânica, artística e criativa.

 

Um músico inculto, sem instrução, incapaz de ler uma partitura, mas que consegue criar músicas com brilhantismo é considerado uma revelação, com um dom natural, mas não inteligente. O escritor que escreve um livro sobre marcenaria obtém maior status de inteligente do que o excelente e caprichoso marceneiro, mesmo que o autor não saiba bater um prego sequer. Mesmo dentro do ramo das letras, ainda, recebe maior apreço aquele profissional que discorre sobre política, filosofia, história e ciência do que aquele que aborda esporte e cultura. Uma vez que alguém seja considerando inteligente com base em alguns critérios culturalmente aceitos, toda e qualquer demonstração de burrice será desculpada e não terá menor importância. O que conta é o rótulo.

 

Os valores e crenças moldam as diferentes visões de inteligência das pessoas. No ocidente, muitos acreditam que as capacidades inatas são responsáveis pelo desempenho intelectual das crianças. No oriente, o trabalho duro, a dedicação e esforço são mais valorizados para desenvolvimento da inteligência. Já nas culturas tradicionais da África e ilhas do Pacífico, pesquisadores descobriram que a capacidade social é característica de bons pensadores.

 

É possível concluir que a definição de inteligência está vinculada à uma avaliação cultural e subjetiva. Na escola, os alunos considerados mais inteligentes são aqueles que obtêm as melhores notas nas disciplinas do currículo tradicional (matemática, física, química, português, história, etc). O vestibular para faculdade é um reflexo dessas informações, com raras exceções. Já as empresas, nos critérios de seleção, não desejam os alunos inteligentes acadêmicos, mas com outras capacidades, como liderança, criatividade, persistência, etc.

 

Como diz Asimov, “desconheço qualquer definição de inteligência que esteja desvinculada de uma apreciação subjetiva, relacionada com o que é geralmente aceito no momento”.

 

 

Teorias científicas versus subjetividade

 

Para conseguir fazer uma análise científica e definir inteligência sem que o argumento da subjetividade atrapalhe a conclusão, serão apresentadas muitas teorias enriquecem a discussão. Desde o final do século XIX, muitos estudos e pesquisas foram feitos sobre a inteligência.  Como o assunto é polêmico, até hoje existe grande controvérsia quanto à definição de inteligência entre (1) um fator geral de inteligência e (2) um conjunto de capacidades inter-relacionadas. Os teóricos propuseram suas definições e buscaram provas estatísticas e laboratoriais para explicar as diferenças individuais.

 

Na primeira vertente, acredita-se que existe um fator, ou poder, de aplicar relações e associações, acionando toda a atividade intelectual. Na vertente de inteligência como um conjunto de capacidade, acredita-se que é uma gama de capacidades separadas e independentes que, agindo em conjunto, produz trabalho intelectual. Ambas as discussões argumentam como e porque as pessoas são diferentes e apresentam manifestações distintas de inteligência.

 

No século XX, os psicólogos, após qualificar a inteligência, iniciaram uma discussão e elaboração de testes de inteligência e de personalidade com o objetivo de quantificá-la, chegando ao índice mais universalmente divulgado (e mal entendido) Quociente de Inteligência – o QI. Para isso, usaram um estudo estatístico buscando definir um padrão médio de performance em relação a certos testes, classificando um indivíduo ao comparar seu desempenho em relação à média.

 

Já nos anos 70 surgiu a Teoria das Inteligências Múltiplas, propondo uma visão mais abrangente sobre a natureza da inteligência. Segundo ela, além das reconhecidas inteligências lógica e lingüística, era preciso considerar outras capacidades como inteligências, como as habilidades musical, motora e intrapessoal. Desta forma, a teoria pluraliza a inteligência em diversas capacidades independentes e mostra que ela não é um problema subjetivo; na verdade, existem diferentes habilidades incomparáveis, ou seja, todos são inteligentes, pois existem diferentes tipos de inteligência.

 

Mais recentemente, nos anos 90, o conceito de Inteligência Emocional passa a incluir a emoção nas manifestações do saber, também se apropriando do termo “inteligência”. Assim, para ser inteligente, além das capacidades tradicionais voltadas ao intelecto, é preciso ter domínio das emoções, usando-as de forma produtiva, sensata, reconhecendo os sentimentos dos outros e os de si mesmo.

 

 

No caminho da definição de inteligência

           

Para nortear a discussão e o foco do trabalho, uma das concepções mais aceita nas diversas teorias é a de que a inteligência envolve a capacidade de solucionar problemas abstratos. Um indivíduo é mais inteligente à medida em que é capaz de pensar em termos de idéias abstratas. Como aponta Howard Gardner (1998), o pensamento abstrato pode ser considerado como a capacidade de perceber relacionamentos e padrões, especialmente aqueles não facilmente detectados pelos sentidos.

 

Pensar abstratamente, avaliando relações, causas, efeitos e propondo soluções, é uma das características do ser humano. Como diz Willian H. Calvin (1998), todas as vezes que olhamos para a geladeira e pensamos o que precisamos comprar no supermercado (solucionando nosso problema de falta de comida), estamos exercitando um aspecto da inteligência que não é visto nem nos macacos ou golfinhos mais espertos. O pensamento abstrato permite às pessoas fazer analogias e ter raciocínio lógico em diversas situações do cotidiano.

 

Os teóricos não são contra a teoria do pensamento abstrato, mas alguns argumentam que a inteligência vai além dessa capacidade, como executar uma ampla variedade de tarefas, cantar ou praticar esportes. Entretanto, para efeito deste estudo, vamos nos limitar à análise da parte da inteligência que envolve o pensamento, voltado ao esforço intelectual tradicional, mais representativo nos ambientes de trabalho e mundo dos negócios.

 

Neste sentido, o raciocínio lógico abstrato é uma das características mais marcantes da inteligência, capaz de diferenciar significativamente as pessoas, dependendo do seu grau de amplitude e velocidade. As capacidades lógicas e lingüísticas são as mais exigidas no cotidiano e ambiente de trabalho. Uma pessoa é mais inteligente neste ambiente quanto mais competente ela for na demonstração prática dessas habilidades, produzindo trabalho útil, solucionando problemas, sendo criativo, comunicando-se bem, etc.

 

Entre as diversas teorias, um consenso é de que o estudo acadêmico contribui na formação da inteligência do indivíduo. E talvez seja consenso, também, que o importante não é o conhecimento armazenado, e sim o seu uso nas demonstrações de inteligência. Mas, como Richard Gregory (1995) diz, “é muito difícil definí-la, e as descrições se baseiam em paradoxos. Assim, atribui-se inteligência aos que têm de pensar porque não conhecem muito, e aos que conhecem muito e, assim, não têm de pensar”.

 

No caminho para definição da inteligência, a parte I apresenta um embasamento científico com algumas teorias, fornecendo subsídios para relacionar conceitos e chegar a uma conclusão. Na parte II são apresentados os mecanismos das capacidades lógicas e lingüísticas; seu objetivo não é postular uma frase que defina inteligência nem reduzir o conceito de inteligência em algum número, e sim identificar um conjunto de padrões e manifestações que apontem para um melhor entendimento de inteligência.